A contribuição de igrejas fortes para a evangelização do Sertão.

07/02/2018
by Davi
in Blog

Durante os últimos 20 anos a igreja brasileira cresceu numericamente de forma rápida e assustadora. Novas igrejas e Ministérios nascem a cada canto e lugar do país, buscando uma forma de “ser igreja” diferente da estrutura herdada, focando em responder as demandas e necessidades da geração do século XXI. As motivações para o crescimento e desenvolvimento podem ser questionáveis em alguns aspectos, mas é fato de que novas comunidades estão surgindo, se organizando e fortalecendo.

O “boom” desse crescimento trouxe problemas. O primeiro é a falta de um discipulado consistente e coerente com a proposta bíblica. Uma multidão de pessoas vindo a Cristo sem receber a orientação básica para a vida cristã, crescendo “aos trancos e barrancos”. Alguns não suportam as dificuldades da “nova vida”, suas “guerras”, “batalhas” e atropelos; e o inevitável acontece: desviam-se! O número hoje de “desviados” ou “sem igreja” pontua a quase 30%. O segundo é o despreparo da liderança espiritual. A demanda do crescimento impede o aperfeiçoamento no campo teológico, pessoal, familiar, ético, eclesiástico e organizacional. Alguns nem podem buscar a capacitação por falta de informação, distância geográfica ou recursos financeiros. O terceiro é o foco “ensimesmado” das novas igrejas. Elas buscam desesperadamente crescer e manter esse crescimento. São por vezes alimentadas na busca do “sucesso ministerial” espelhado na visão do pastor “x”, da igreja “y” ou do ministério “tal”. O frenesi é tanto que as novas igrejas e ministérios não conseguem ir além de si. São ainda “bebês” e óbvio, não podem dar, porque precisam desesperadamente receber.

Em contra partida, há uma igreja sólida, forte, robusta, madura e preparada no Brasil. Sua linha é bíblica; sua liderança é capacitada; seus ministérios são “vivos”, coerentes e equilibrados; sua visão é de mão dupla: “pra dentro” e “pra fora” (da igreja). São igrejas que vão além de si. Descobriram o “reino”. Estão prontas a estabelecer parcerias e desenvolver projetos além das estruturas denominacionais ou ministeriais. Entenderam o valor de “dar”. Essas igrejas não são muitas, mas estão despontando com seus ministérios e servindo.

Há uma outra foto da igreja brasileira: a igreja pobre! Aquelas cujos líderes dão de si, sem terem muito. Que saem de longe a pé ou no lombo de um animal para dar assistência espiritual aos que precisam. São igrejas que não sonham em ser grandes (na verdade nem pensam nisso) ou ser destaque na mídia evangélica. Igrejas que apenas querem o mínimo para ministrarem por serem literalmente “pobres.” Igrejas que precisam de bíblias, folhetos, roupas, livros, treinamento e mobilização missionária.

São igrejas que vivem e sobrevivem no anonimato, longe das reportagens de “magazines” evangélicas; longe dos sites; longe dos murais das grandes igrejas e ministérios. São igrejas muitas vezes esquecidas por suas denominações. São igrejas cujos membros gastam horas a pé para receber uma mensagem de Deus para suas vidas. Igrejas cujas crianças não possuem nenhuma “tia” capacitada para lhes ensinar. Igrejas que não têm material didático para crianças, jovens ou adultos. Igreja cujos membros não sabem nem ler e por isso a Bíblia é um livro escondido para suas mentes e corações.

São igrejas sertanejas; igrejas no sertão do nordeste brasileiro. Um exemplo é a igreja de “Vila Carneiro” no sertão baiano, cujo o obreiro é vendedor, mas sua pequena igreja mantém uma pequena congregação em “Lagoa da Vaca”, no sertão do sertão baiano. São igrejas no sertão do Maranhão, Piauí, Ceará, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba e Bahia. Igrejas no interior de tantos outros lugares do Brasil desconhecido.

A esperança de várias igrejas do sertão nordestino são suas “irmãs” mais abençoadas. Essa oportunidade de abençoar essas igrejas do sertão, é algo bíblico. Paulo nos dá o exemplo em 2 Coríntios 8.1-9.15 quando fala da coleta de dinheiro para os crentes pobres de Jerusalém. Ela cita essa coleta em 1 Coríntios 16.1-4. Paulo considerava que o ofertar material era uma forma espiritual de reconhecer que o evangelho chegara até eles por meio dos judeus cristãos. Paulo queria resgatar essa dívida e estimulava a igrejas, baseada na graça, ou seja, na benção que Deus lhes havia dado (2 Co 8.1) para que pudessem ser generosas e abençoar quem os abençoara.

Há alguma aplicação desse princípio para nós hoje? Acredito que sim. Muitas igrejas fortes nas capitais do nordeste, no centro-oeste, sudeste e sul do Brasil conseguiram crescer e desenvolver graças a um grupo migratório do sertão do nordeste. Diversos líderes e pastores desenvolveram sua formação teológica e não permaneceram em suas origens, não porque não quisessem, mas porque as condições familiares econômicas não permitiram. Não só o Brasil desenvolveu economicamente graças ao trabalho migratório do sertanejo, mas também boa parte da igreja brasileira sadia. Há um débito da igreja forte brasileira para com a igreja pobre e sertaneja.

Para “pagar” esse débito espiritual acredito que devemos começar com líderes espirituais de igrejas fortes e estabelecidas nas capitais do nordeste. Essa é a primeira consciência. Os olhos desses líderes precisam voltar para seus irmãos no sertão. Recordo-me de um pastor em Belo Horizonte dizendo-me que estava plenamente envolvido com igrejas no Vale do Jequitinhonha (uma região muito pobre e miserável em Minas Gerais) porque uma parte de seus líderes que serviam fielmente a igreja vieram daquela região. Acredito que o caminho seja esse. A liderança dessas igrejas deveria estar consciente desse débito, mapear sua igreja para saber a origem de sua membresia, organizar um plano definido para abençoar a igreja sertaneja e estabelecer parceria (denominacionais ou não) com outras igrejas. E fazer o trabalho. Estou certo de que haverá um forte impacto na igreja.

Artigo de Roberto Amorim retirado do livro “O Grito do Sertão Nordestino”,  organizado pelo pastor Beat Roggensinger

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