Seis equívocos que indicam falta de visão missionária

Por Simon Reifler

Existe um ditado que diz: “o bom é o maior inimigo do melhor”. Muitos costumes das igrejas relacionados a missões, foram originadas das melhores intenções, e em sua época ou seu contexto fizeram sentido, mas hoje se tornaram um obstáculo para a expansão do Reino de Deus.
Todos os “equívocos” citados neste artigo não são errados por si só, mas se tornam verdadeiros problemas quando praticados sem reflexão ou de forma exagerada e exclusiva.

1.“Cremos na igreja local”
Tenho frequentemente ouvido essa frase para justificar o desinteresse das igrejas em missões transculturais. É muito louvável quando uma igreja reconhece e assume sua responsabilidade missionária a nível local. A igreja foi chamada para pregar o Evangelho e em seu contexto, ser um agente transformador da sociedade, isso é parte essencial da missão da igreja.
Quando, porém, esse entusiasmo pela obra local vem de encontro com o envolvimento missionário além de suas fronteiras, a Grande Comissão fica desfigurada. Algumas igrejas têm se ausentado dos desafios transculturais justificando-se com seu alto investimento na comunidade local. Outras alegam que a missão transcultural é responsabilidade da denominação ou das missões pró-eclesiásticas. Atos 1.8 nos ensina claramente que missão é tanto local (Jerusalém), como além dos nossos limites locais (Judéia, Samaria e os confins da terra). A Graça que Jesus trouxe na cruz tem uma dimensão universal e se estende a todas as nações e até mesmo criaturas. Por isso a missão da igreja alcançada por essa graça deve ter uma dimensão local, regional e também transcultural. Como essas três dimensões da missão são contempladas em sua igreja?

2. Missionários são pessoas enviadas para o contexto transcultural”
Um erro semelhante acontece quando “missões” são limitadas à missões transculturais. Uma admiração e valorização exagerada das missões transculturais, geralmente acompanha um complexo de inferioridade dos obreiros locais. Como missionário estrangeiro tenho experimentado o que é ser objeto dessa admiração. Ao mesmo tempo ouço relatos de obreiros em campos missionários no Brasil que lutam pelo sustento e pela aceitação.
Esses obreiros são de fato missionários, até mesmo transculturais, quando, são enviados por uma igreja urbana para trabalhar na zona rural, por exemplo. As fronteiras transculturais não se limitam às fronteiras nacionais. Alcançar os Sertanejos, Ribeirinhos, a classe alta e empresarial, uma subcultura como a dos surfistas; tudo isso é missão transcultural.
A igreja primitiva também demorou a entender que o Evangelho se estendia para pessoas que não eram judeus. Escolheram sete homens para inicialmente cuidarem de viúvas da língua grega, entre eles, Estevão e Felipe. Mas a missão desses simples diáconos, logo foi muito além do ministério para qual foram designados. Felipe levou o evangelho além de seus limites, aos samaritanos, e graças à conversão do eunuco da Rainha Candace, pode ser considerado o fundador da missão na África. Simples obreiros locais usados por Deus como grandes missionários transculturais.

3. “Todos nossos missionários estão em contexto de evangelismo e plantação de Igrejas”
A obra no Reino de Deus para a qual fomos chamados se estende muito além da plantação de igrejas e evangelização. A missão de Jesus pode nos servir de exemplo dessa verdade: a autodeclaração de Jesus a respeito de seu ministério em Lucas 4.18-19, deixa claro que somente pregar está longe de resumir a nossa missão. Também Paulo nos ensina a “conduzir os gentios à obediência por palavra e por obras, por força de sinais e prodígios pelo poder do Espírito Santo.”
O Reino de Deus não consiste somente de pregadores e evangelistas, mas de discípulos que testemunham através de suas vidas “ordinárias” que Jesus é a Salvação e contribuem com seus dons para o crescimento do Reino em todas as áreas da vida. Para que uma missão funcione, além de missionários e obreiros tradicionais, ela precisa de administradores, contadores, secretários e obreiros na manutenção da infraestrutura. Eles também são missionários usando seus dons e talentos para o desenvolvimento do Reino. Sua igreja está disposta a investir neles?

4. “Todos os nossos Missionários são enviados pela Agência Denominacional”
Durante uma visita, em meio a uma ação evangelística da minha igreja, o dono da casa, que era católico, me fez uma pergunta reveladora: “Por que há tantas religiões evangélicas diferentes?”
A verdade é que as Igrejas Evangélicas não são reconhecidos como um corpo unificado que tem o Senhor Jesus como seu cabeça. É muito comum encontrar uma visão do Reino, que na prática limita o “Reino” às ações da denominação. Sabemos que a nossa denominação não é a única que tem a Salvação, mas muitas vezes agimos como se fosse. “Nosso alvo é ter uma igreja da nossa denominação em cada cidade do estado”, “Precisamos estar presentes em todos os estados do Brasil”; frases como essas revelam as verdadeiras intenções. O alvo primário da igreja que tem visão de Reino é pregar onde o evangelho nunca foi pregado (Rm 15.20)!

5. “A nossa igreja faz projetos missionários todos os anos”
Com o objetivo de envolver seus membros em missões e para garantir que as ofertas missionárias sejam investidas adequadamente, muitas igrejas tem feito missões através de projetos missionários. Também é verdade que muitas missões frequentemente usam esse método, pois encontram dificuldades em conseguir missionários vocacionados para o ministério em tempo integral. Parece ser mais fácil convencer os crentes a investirem duas semanas ou até mesmo um mês de sua vida para missões do que doarem uma vida inteira para a obra de Deus.
Projetos missionários a curto prazo podem corresponder ao imediatismo da nossa sociedade e assim parecem atrativos e mais controláveis do ponto de vista empresarial. Esses projetos têm seu valor no recrutamento e despertamento de futuros missionários. E graças a Deus, muitos têm recebido seu chamado através dessas experiências. Mas a longo prazo, o efeito desses projetos no campo, muitas vezes são no máximo, razoáveis.
Infelizmente o “projetismo” tem tomado o lugar de uma missão encarnatória e sustentável. Estão diminuindo os missionários que “habitam” (João 1.14) em meio ao povo que querem alcançar. Para alcançar povos orais, como os sertanejos, o Evangelho precisa ser visto e experimentado em carne e osso. A palavra precisa ser vivida e o evangelho aprovado em meio ao sofrimento e às lutas do cotidiano. Isso não se faz com projetos, mas com vidas sacrificadas. Jesus viveu 30 anos estudando seu povo antes de iniciar seu ministério e demorou 3 anos para discipular 12 pessoas. Quem somos nós para fazermos isso tudo em um único projeto missionário de 15 dias?

6. “Apoiamos missionários enquanto estão no campo da igreja”
A ideia de envio “sem retorno” direto para a igreja parece algo muito estranho. Paulo tinha a prática de esperar o envio de missionários de cada igreja que ele fundava. Epafrodito de Filipos (Fil 2.25-30) e Epafras de Colossos (Col 4.13) são dois exemplos dessa prática. Era a forma como as igrejas demonstravam a sua gratidão pela graça que os alcançou. Os textos bíblicos acima comprovam que o compromisso da igreja sempre era com o missionário e não com um campo específico.
É muito comum um membro com grande potencial ser enviado para um campo da própria igreja. Enquanto ele faz a sua primeira experiência como missionário, ele se capacita e começa a descobrir seus dons. Seguindo um chamado mais apurado, esse obreiro agora almeja ser enviado por sua igreja para um campo transcultural, mas ele se depara com o corte imediato do sustento. A igreja alega que o sustento era direcionado ao campo e não a ele como missionário.
O compromisso da igreja deve ser primeiramente com seu missionário. O Reino de Deus funciona com gente de carne e osso! É um privilégio quando uma igreja pode ser uma agência enviadora de seus próprios membros. Quem abriria mão de ver seus próprios frutos se multiplicarem?
Infelizmente, todos os exemplos aqui citados neste artigo não nasceram na imaginação do autor. Todos realmente aconteceram ao longo dos últimos anos e desenham uma triste imagem da visão de Reino das nossas igrejas.